domingo, 4 de setembro de 2016

NOSSOS DIAS MELHORES

 NUNCA VIRÃO?



Ando em crise, numa boa, nada de grave. 
Mas, ando em crise com o tempo.

Que estranho "presente" é este que vivemos hoje, correndo sempre por nada, como se o tempo tivesse ficado mais rápido do que a vida, como se nossos músculos, ossos e sangue estivessem correndo atrás de um tempo mais rápido.

As utopias liberais do século 20 diziam que teríamos mais ócio, mais paz com a tecnologia.


Acontece que a tecnologia não está aí para distribuir sossego, mas para incrementar competição e produtividade, não só das empresas, mas a produtividade dos humanos, dos corpos.

Tudo sugere velocidade, urgência, nossa vida está sempre aquém de alguma tarefa.



A tecnologia nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas, fábricas vivas, chips, pílulas para tudo.

Funcionar é preciso; viver não é preciso.
Por que tudo tão rápido?
Para chegar aonde?


Nossa vida é uma ejaculação precoce.

Estamos todos gozando sem fruição, um gozo sem prazer, quantitativo.

Antes, tínhamos passado e futuro; agora, tudo é um "enorme presente", na expressão de Norman Mailer.

E este "enorme presente" nos faz boiar num tempo parado, mas incessante, num futuro que "não pára de não chegar".


Antes, tínhamos os velhos filmes em preto-e-branco, fora de foco, às fotos amareladas, que nos davam a sensação de que o passado era precário e o futuro seria luminoso. 

Nada.

Nunca estaremos no futuro.

E, sem o sentido da passagem dos dias, de começo e fim, ficamos também sem presente.

Estamos cada vez mais em trânsito, como carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa, e cada vez mais nossa identidade vai sendo programada.


O tempo é uma invenção da produção.
Não há tempo para os bichos.

Se quisermos manhã, dia e noite, temos de ir morar no mato.


Outro dia, fui atrás de velhos filmes que nossa família rodou há 50 anos também.

Queria ver o meu passado, ver se havia ali alguma chave que explicasse meu presente hoje, que denunciasse algo que perdi, ou que o Brasil perdeu...

Em meio às imagens trêmulas, riscadas, fora de foco, vi a precariedade de minha pobre família de classe média, tentando exibir uma felicidade familiar que até existia, mas precária, constrangida; e eu ali, menina comprida feita um bambu no vento, já denotando a insegurança que até hoje me alarma.


Minha crise de identidade já estava traçada.

E não eram imagens de um passado bom que decaiu, era um presente atrasado, aquém de si mesmo.

Dava para ver ali que, estavam aquém do presente deles, que já faltava muito naquele passado.

Vendo filmes americanos antigos, não sentimos falta de nada. Com suas geladeiras brancas e telefones pretos, tudo já funcionava como hoje.

O "hoje" deles é apenas uma decorrência contínua daqueles anos.

Mudaram as formas, o corte das roupas, mas eles, no passado, estavam à altura de sua época.

A Depressão econômica tinha passado, como um grande trauma, e não aparecia como o nosso subdesenvolvimento endêmico.

Para os americanos, o passado estava de acordo com sua época.

No passado, éramos carentes de alguma coisa que não percebíamos.

Olhando nosso passado é que vemos como somos atrasados no presente.

Nos filmes brasileiros antigos, parece que todos morreram sem conhecer seus melhores dias.



E nós, hoje, nesta infernal transição entre o atraso e uma modernização que não chega nunca?


Quando o Brasil vai crescer?
Quando cairão afinal os "juros" da vida?

Chego a ter inveja das multidões pobres do Islã: aboliram o tempo e vivem na eternidade de seu atraso.

Aqui, sem futuro, vivemos nessa ansiedade individualista medíocre, nesse narcisismo brega que nos assola na moda, no amor, no sexo, nessa fome de aparecer para existir.

Nosso atraso cria a utopia de que, um dia, chegaremos a algo definitivo.

Mas, ser subdesenvolvido não é "não ter futuro"; é nunca estar no presente.


Eliane de Pádua


Nenhum comentário:

Postar um comentário